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A Moleque de Ideias

2659 dias atrás por Juliana   Comentários (0)

Outro dia estávamos, eu e Leila, vendo registros antigos da Moleque. Foi assim que, procurando no arquivo de 2003, encontramos os cadernos onde ela anotava, no começo das sessões, as ideias da minha turma, além de fazer observações sobre nós. Li tudo e, engraçado, lembrei de vários dos dias ali descritos, com seus detalhes e particularidades. Na manhã seguinte peguei para ver uma pasta com tudo o que eu fiz naquela época, e reparei que eu tinha ainda bem frescos na cabeça os momentos da produção de todos os desenhos, pesquisas, vídeos e fotos. Seria capaz de contar a história de cada uma daquelas folhas, ressaltando, inclusive, meus pensamentos e sensações ao imprimi-las.
Conversamos sobre o modo como a Moleque permaneceu tão viva na minha memória até hoje, e concluímos que o motivo disso deve ser o fato de que tudo que estava ali, guardado naquela pasta do mesmo jeito há uns dez anos, tinha sido criado por mim porque eu quis fazê-lo. Eram projetos meus, vontades que eu ia externalizando com os recursos que nos eram apresentados e que tiveram o papel de me mostrar que a maioria das ideias que temos são possíveis. Foi na Moleque que, com nove anos de idade e com desejo de pesquisar, eu e meu amigo Lucas pudemos ler durante meses sobre os tubarões e depois, com as informações coletadas, fazer um livretinho, com texto de conclusão e tudo. Foi lá também que consegui fazer o boneco do homem- aranha voar para um filme, foi lá que eu procurei na internet a letra de uma música de que até hoje não esqueço. 
E foi assim que eu entendi que é mais fácil e significativo realizar as coisas quando elas nos representam, quando elas nos são queridas. É por isso que eu reconheço bem a euforia da Maria Luiza e da Letícia, por exemplo, quando souberam que podiam criar uma carteirinha para elas, com seu nome, uma imagem que escolhessem, cor e capinha de plástico. Pode parecer algo pequeno mas, para alguém de 6 anos, criar para si uma carteirinha pode ser o ápice do dia. E é por isso que eu esperava, ansiosa, a terça feira para ir para a Moleque. E é por isso que eu vejo, hoje, as crianças do mesmo jeito que eu ficava, quando vamos buscá-las na sala e elas abrem aquele sorriso enorme de quem esperou a semana inteira.
  
Então observando sob esse meu novo prisma, um pouquinho mais velha e agora trabalhando aqui, eu fico feliz de ver que esses meninos estão tendo a oportunidade que eu tive de passar pela Moleque, encontrando tantas possibilidades de criar e de colocar em prática suas ideias, e a chance de conviver e interagir com as pessoas livremente, aprendendo a lidar com o outro, relacionando-se com os amigos de turma e conosco, indo na direção da conversa e do entendimento. As crianças não precisam de adultos que resolvam seus problemas e lhe deem as respostas prontas, elas precisam ter a dose suficiente de confiança para passarem por seus impasses e obstáculos por vontade própria, simplesmente porque se depararam com eles e porque querem solucioná-los. Todos os dias alguma criança nos pergunta como fazer o login no computador ou como escrever determinado nome na barra do Google. Essa mesma criança já executou esses procedimentos antes e sabe como fazê-lo. O que lhe falta é saber que sabe, que ela pode tentar sozinha e que, se não conseguir, nós todos que estamos com ela na sala, adultos e colegas, podemos ajudá-la. O bom é ir buscando, pensando e acreditando. Está aí uma coisa que eu acho que herdei dos meus anos na Moleque e que assimilo um pouco todo dia, agora que voltei a frequentá-la: a autonomia e a compreensão de que minhas escolhas são, de fato, minhas, de que eu tenho liberdade para acreditar nelas e capacidade para levá-las adiante. O importante é o respeito e o cuidado, com a gente e com o alheio. Conhecer limites, principalmente para as crianças, é crucial no exercício de liberdade delas.
Aí às vezes alguém me pergunta o que é a Moleque de Ideias. Respondo agora, a todo mundo de uma vez. A Moleque de Ideias é um lugar pra ser. Pra ser a gente, só, sem preocupação com o que esperam de nós ou com o que talvez tenham dito que nós deveríamos querer. Nós fazemos o que nos deixa satisfeitos no final e o que nos parece bom. E é melhor ainda quando realizamos nossas ideias junto com outras pessoas que se interessam de verdade por elas. 
Deve ser por isso que outro dia a Luana disse que queria morar na Moleque. 
Eu também queria.